O número de construções blindadas vem crescendo em cidades com altos índices de violência urbana, como São Paulo e Rio de Janeiro. Empresas especializadas nesse tipo de solução registraram um aumento expressivo na procura por esses serviços nos últimos dois anos e, para atender a esses projetos, já disponibilizam no mercado uma série de sistemas e produtos próprios. A especificação, a contratação do fornecedor e a execução dessas soluções, no entanto, seguem uma lógica própria, que deve ser observada pelo construtor na hora da definição do uso desses sistemas.

A blindagem arquitetônica pode ser prevista em qualquer fase da obra, inclusive em edificações já prontas. Mas, segundo especialistas, o ideal é especificá-la ainda em projeto. “Nessa etapa, há flexibilidade para especificação de materiais mais pesados e baratos, já que é possível prever a execução de estruturas mais reforçadas nos locais a serem blindados”, explica Leonardo Tahan, gerente de planejamento estratégico da Blindaço. Segundo ele, é possível, a partir da escolha desse tipo de material, reduzir significativamente os custos da blindagem.

Em projetos de fachadas, outro aspecto que deve ser considerado é a exigência de caixilhos mais robustos. Para evitar conflitos técnicos e estéticos, a recomendação é que tanto arquitetos e calculistas contem com a consultoria de uma empresa especializada, capaz de desenvolver o projeto em conjunto com esses profissionais. “O trabalho deve ser de cooperação, já que o projetista estrutural não tem competência técnica para especificar a blindagem”, completa Emerson Mendonça dos Santos, presidente da Câmara de Blindagem Arquitetônica da Abrablin (Associação Brasileira de Blindagem).

Dependendo do nível balístico exigido em projeto, a blindagem poderá ter um impacto considerável na estrutura da edificação. “As estruturas devem ser superdimensionadas para suportar o peso das peças”, explica Vinicius de Luca, sócio-diretor da Vault, observando que um caixilho pode chegar a pesar 100 kg/m² contra os 10 kg/m² da solução convencional.

“Quanto maior for o peso, maior será a necessidade de se reforçar a estrutura. Uma peça com blindagem considerada de nível III (capaz de suportar impactos dos disparos de fuzis) de 125 kg/m² e 2,5 m de altura, pode representar um peso de 312 kg por metro de viga”, confirma o engenheiro Joaquim Evangelista da Costa, gerente-executivo do núcleo de gestão de contratos da Racional. A solução ideal é descarregar o peso das peças nas vigas, alternativa nem sempre possível. Em fachadas com pele de vidro, por exemplo, é preciso apelar para o uso de perfis mais robustos na caixilharia.

Em projetos de retrofit para os quais estejam especificadas peças de blindagem nível III, a aplicação de reforços estruturais (como fibra de carbono, chapas metálicas, entre outras opções) geralmente é necessária. Se os elementos incorporados à edificação forem mais leves ou se a estrutura existente for robusta, tais reforços são dispensáveis. “Esses materiais mais leves envolvem alta tecnologia para não comprometer a estrutura e, portanto, são mais caros”, ressalta Carlos Roberto Barbosa, diretor técnico da Blindaço.

Aliás, quando o assunto é custo, as cifras envolvidas em projetos de blindagem são altas, dependendo dos materiais usados. De acordo com a Vault, o metro quadrado da veneziana e do conjunto caixilho e vidro chegam a custar R$ 1,5 mil e R$ 2 mil respectivamente. Uma porta blindada não sai por menos de R$ 4 mil. Já os painéis blindados estão na faixa de R$ 500 a R$ 1,5 mil o metro quadrado. “Mas é preciso enxergar esses números como investimento e não como custo”, argumenta de Luca. Vale lembrar que os serviços de blindagem são customizados e feitos sob encomenda, abrindo espaço para negociações na hora de calcular e fechar valores.

Outro ponto que merece atenção é a execução, em geral, bastante similar à de sistemas convencionais, mas que, no entanto, demanda mão de obra treinada e especializada nesse tipo de solução devido ao peso dos materiais envolvidos e às atipicidades de projeto. “A logística desses materiais também deve ser muito cuidadosa”, reforça Evangelista da Costa. Como as peças são muito pesadas, o içamento é feito com equipamentos especiais como gruas, talhas elétricas ou guinchos.

Checklist da contratação

– Antes de escolher o fornecedor, confira se a empresa de blindagem é devidamente certificada e registrada no Exército Brasileiro (mais informações: www.abrablin.com.br).
– A empresa deve contar com estrutura industrial e equipe de engenheiros, arquitetos e projetistas especializados para atender aos projetos.
– O fornecedor também deve oferecer funcionários qualificados e treinados para realizar os serviços de instalação e manutenção.
– Certifique-se de que os materiais que serão aplicados possuem TR (Título de Registro) e o respectivo Retex (Relatório Técnico Experimental), ambos emitidos pelo Exército Brasileiro.

Edifício da Petrobras

O edifício destinado à Universidade Petrobras está localizado no bairro Cidade Nova, uma região de convergência entre o centro e a zona norte do Rio de Janeiro, onde a incidência de criminalidade e de balas perdidas é considerável. Para garantir a proteção dos quase quatro mil usuários da edificação, o projeto previu a utilização de caixilhos blindados de aço com acabamento de alumínio e de vidros balísticos laminados de 55 mm de espessura, ambos capazes de suportar impactos de munições de nível III (fuzil).

Ao todo, foram mais de 1 mil m2 de área protegida. Segundo a Vault, empresa responsável pelo projeto e execução, apesar do incremento de 200 t, a inserção desses sistemas de segurança não acarretou em impactos à estrutura do edifício em virtude da sua especificação ainda em fase de projeto. Na fase de execução, o peso das peças de vidro (mais de 500 kg cada) e a necessidade de manusear vários mecanismos de instalação ao mesmo tempo (como guinchos, por exemplo) implicaram um dos maiores desafios para a equipe de engenheira envolvida na obra.

O planejamento cuidadoso e a presença de profissionais experientes auxiliaram a evitar transtornos durante essa etapa. Outro ponto que mereceu atenção foi a logística dos materiais dentro do canteiro. Os caixilhos e vidros (encaixilhados no local) foram entregues na obra separados por seção e nos respectivos andares onde seriam instalados e içados por elevadores ou guinchos hidráulicos.

Sulamérica Seguros

A localização foi um dos principais fatores que condicionaram a especificação da blindagem arquitetônica da sede principal da Sulamérica Seguros, localizada no bairro Cidade Nova, no Rio de Janeiro. Previsto ainda em fase de projeto, o uso de sistemas de blindagem na fachada da edificação foi inicialmente descartado pelo cliente que, no entanto, voltou atrás da decisão tão logo as obras foram finalizadas. A decisão final visou a proteger os usuários da edificação que, além de contar com uma extensa fachada de pele de vidro (de 14 mm) ainda se localiza muito próximo (cerca de 700 m) de algumas das favelas com os maiores indicies de violência da região.

O resultado foi a execução de 5 mil m de caixilharia blindada. O conjunto de vidros à prova de bala e os caixilhos de aço tiveram um impacto de 300 t no edifício sem, contudo, demandar reforços adicionais à estrutura. Originalmente, o projeto previa a especificação de um conjunto de sistemas de blindagem nível III (contra fuzil). Depois de uma série de revisões técnicas, cliente e fornecedor bateram o martelo pela execução da blindagem nível II (resistente a disparos de armas tipo Magnum 357).

De acordo com a Blindaço, empresa responsável pelo projeto e execução, com essa redução no nível balístico dos materiais empregados foi possível atender com folgas às necessidades da obra e ainda reduzir os custos em aproximadamente R$ 3 milhões. O maior desafio do projeto foi o curto prazo – três meses apenas – para a fabricação e instalação dos mais de 3 mil m2 de área a serem blindados. Para agilizar a etapa de execução, as esquadrias foram especialmente projetadas e fabricadas para atender a um sistema de montagem rápida. Todo material foi fracionado em peças de aproximadamente 250 kg, transportadas no canteiro por elevadores do edifício e instaladas por meio de equipamentos especiais.

Produtos & Técnicas – Soluções para blindagem arquitetônica

Vidros blindados

Composto por lâminas de cristal transparente, interligadas entre si por material plástico extremamente resistente (PVB ou EVA), as espessuras dos vidros variam de acordo com a NBR 15.000 e com os níveis balísticos solicitados em projeto, a saber: anti-invasão (trilaminado); nível II (resistentes a armamentos até Magnum 357 e pistola 9 mm); nível III-A (resistente a armamentos até Magnum 44 e submetralhadora 9 mm) e nível III + PA2 (resistente a armamentos até fuzil AR 15 e FAL 7.62 mm).

Caixilhos blindados

Assim como os vidros, os caixilhos blindados – fabricados com perfis de aço soldados entre si por solda MIG – podem ser encontrados no mercado com espessuras diversas, que variam de acordo com os níveis balísticos solicitados. Possuem diversos tipos de acabamentos (como alumínio, madeira e inox) e opção de passagem de som e ar-modelo ideal para projetos de guichês, bilheterias e lotéricas.

Portas anti-invasão

As portas anti-invasão blindadas são normalmente fabricadas com chapa tripla ou dupla de aço com as espessuras adequadas ao nível de proteção demandado. Seu interior é estruturado por perfis de aço soldados entre si por solda MIG e preenchido com material especial isolante termoacústico. Já o batente blindado é fabricado com perfis de aço reforçado e fixados na alvenaria por chumbamento ou pinos de aço. Ideal para projetos residenciais, o sistema conta ainda com fechaduras com quatro pinos de travamento e possui a opção de pinos móveis de travamento no piso e no teto, além de cilindro à prova de arrombamento com acionamento por engrenagem e chaves com segredo multiponto.

Painel blindado

Fabricados em chapa dupla de aço carbono com estrutura interna tubular, os painéis são erguidos como se fossem divisórias blindadas e podem contar com visores de vidro. Assim como os demais produtos, a espessura dos painéis variará de acordo com o nível de blindagem previsto em projeto. A solução é ideal para projetos de bunkers (quarto do pânico) e guaritas elevadas de aço. Podem ser encontrados no mercado em aço e outros materiais alternativos (como fibra de vidro e resina) e com isolamento termoacústico.

Revestimento de alvenaria blindado

Também fabricado com chapas duplas de aço carbono soldadas entre si, o revestimento de alvenaria não possui estrutura interna, sendo fixado diretamente na alvenaria por chumbadores de aço ou chumbamento com insertes metálicos. Pode ser usado em guaritas já prontas ou em locais que necessitem adaptações, contanto que a alvenaria esteja em bom estado. Na etapa de execução, os módulos devem ser alinhados corretamente e as chapas devem receber acabamento com massa e proteção com fundo anticorrosivo (primer).

Venezianas blindadas

Confeccionados com perfis de aço carbono soldados entre si, esses elementos permitem a ventilação sem comprometer a segurança já que possuem sistema “overlap” (recobrimento de frestas), impedindo a penetração de projetos. Podem ser usados em guaritas, em lotéricas e portas residenciais.

Concreto balístico

Produzido a partir do concreto laminado (150% mais caro do que o concreto normal), a solução possui chapas de durezas diferentes que delaminam de acordo com os ataques. Ideal para projetos de guaritas pré-moldadas, o seu uso elimina os revestimentos de aço balístico e torna as obras de blindagem mais rápidas e limpas. Testado e aprovado por laboratórios nacionais e internacionais, como o CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos) e o CTT (Centro de Treinamento Tático), o concreto balístico ainda está em fase de aprovação pelo Ministério da Defesa e pelo Exército Brasileiro.